segunda-feira, 5 de maio de 2014

ZÉ GERAL - DO INÍCIO EM CAMPO GRANDE, AO SARAU, À SUA VIDA!

Quem é músico e artista sabe da importância de "Zé Geral" para a Cultura de Mato Grosso do Sul.

Fiz um pedido ao Zé em novembro, para ele contar uma pequena história sobre o "Sarau do Zé Geral" e ele me enviou essa imensa Matéria, difícil de ser compilada, rica em detalhes, de suas lutas pela música e pelo sarau, pois ele percorreu inúmeros endereços em Campo Grande para dar continuidade, onde sempre foi o reduto dos artistas de Campo Grande, Sul-Mato-Grossenses e de quem viesse de fora.
Zé Geral - Acervo Pessoal

Aqui inicia a história do "Zé Geral", grande incentivador da arte de MS.

Quem me conhece, sabe, que as mangas me aprisionaram aqui no MS!
Em 1990, janeiro, me mudei pra cá em definitivo. Sou mineiro, nascido nas bandas de Governador Valadares. Só fiz nascer lá... Me mudei pequeno, com 4 ou 5 anos pra Atibaia/SP, a terra dos morangos e do bom clima. Vivi minha adolescência em grande parte do Estado de São Paulo. Dei umas perambuladas pelo país e acabei fixando raiz e até filho gerando no MS. Mas não foi só o Zé Vitor, o que eu vim aqui gerar...
De repente a casa em que eu morava, pós separação, na Rua Treze de Maio, centro de Campo Grande, por volta de 1994, ano em que eu voltava de uma viagem à Paraíba, (após perdermos o Ayrton Sena), foi se tornando um reduto de músicos. Por vários motivos este reduto foi se consolidando num ponto de encontro. A proximidade com a OMB e a propaganda na entrada de aulas de música, pois ministrava ali meus cursos, foi fazendo minha pequena edícula nos fundos de uma outra casa, se tornar muito conhecida.
E meu nome era associado sempre à pessoa que recebia e ajudava os músicos. Evidentemente quem mais precisava ajuda era eu próprio, mas minha dedicação, camaradagem, carinho e abrigo a quem a mim recorria, era muito prazeroso e isto se tornava evidente.
De modo que quando a idéia do Sarau brotou, eu já tinha uma gama muito forte em termos de música e arte daqui, ao meu lado... Roberto Maranhão, Geraldo Espíndola, Paulo Simões, Geraldo Ribeiro, Marilia Reis, Toniquinho, Bibi do cavaco, Heron Zanata, Dalton Trevisan, Claudinho da viola (que ficou da viola com meu incentivo), Zé Du, Paulo Gê, Laércio Honorato, Patricia Nascimento, Joelma Nascimento, Rodrigo Teixeira, Alex Batata, entre outros eram assíduos freqüentadores. Meu feijão e meu café faziam sucesso.
Meu violão, um pouco. Só em 1997, janeiro, dia 29, quarta-feira é que dei nome e comecei a contar as edições realizadas. Neste endereço, onde morei e tudo começou a gente realizou mais de 200 edições...
Colhi e cuidei de muito caju e jabuticaba. Plantei maracujá, construí palco, banheiros e história... Muitas histórias. Gravei meu CD, conheci músicos e artistas do porte de Adriano Magoo, Antonio Porto, Sandro Moreno, Alex Mesquita, Yamandu Costa, Emmanuel Marinho, Arapiraka, Gelton Borges, Mauro Naves, Carlos Casagrande e muita gente da mais alta categoria e ao perder esta locação, com problema com um só vizinho, que mudou-se para a casa da frente. Depois de oito anos em que eu lá estava, bastou três meses para fazer com que eu saísse... Começou a peregrinação...
SEGUNDO ENDEREÇO: Rua 26 de agosto (próximo aos hotéis da Av. Afonso Pena).
Num espaço bem maior que a Treze de Maio, um palco maravilhoso, pé de manga no quintal, banheiros, bilheteria, enfim, uma boa estrutura... Como eu ainda continuava solteiro, acabei me ajeitando e morando por ali mesmo. As noites de quarta-feira continuavam agitadíssimas. Em mais de três anos de Saraus ininterruptos (toda quarta-feira acontecia) eu já possuía um cadastro com quase 1000 artistas frequentadores (não eram só músicos, tinha muita gente de teatro, das artes plásticas, escritores, poetas e uma gama intensa de gente interessada em arte. Famosos também frequentaram, Bira, Paulo Moska, Paulo Calazans, Durou 9 meses. Precisei sair pois os donos começaram a locar o espaço para outros eventos (Claro.... O sarau movimentou e agitou o pedaço... Cresceram o olho) e nestes outros eventos, um grupo de pagode começou a dar fim em minhas coisas... Precisei sair rapidinho. Mudamos pra mesma rua em frente ao Mercado Municipal.

TERCEIRO ENDEREÇO: Rua 26 de agosto em frente aos índios do mercadão, num estacionamento em que construí banheiros e bar. Durou só um mês (5 edições) uma senhora já de certa idade se incomodou e eu não esperei que viessem a mim reclamar... Puxei meu carro e trens...
QUARTO ENDEREÇO: Av. Afonso Pena (estacionamento ao lado do Camelódromo) O Danilo Corrêa, meu amigo, ali morava e dali saiu para que eu fizesse o Sarau. Foi maravilhoso. Sem nenhuma propaganda, mudamos na mesma semana e nem ao menos uma placa indicativa em frente do antigo endereço eu coloquei. Não precisou (o senhor Vicente, que morava ali foi avisando as pessoas que iam pra lá e até meia-noite o “buracão” como era conhecido o lugar “forrou”. Caiu um pé d'água muito forte, mas ninguém arredou o pé. Foi um dos únicos Saraus que meus filhos Sheila e David participaram, pois passavam uns dias aqui comigo. Duas e meia da manhã, o gerente do Hotel vizinho deu um grito no portão: - Até que horas vai esta merda aqui? Resultado: Durou somente uma edição (uma única noite). Desanimado, “larguei mão” e comecei a tocar e a cantar, sozinho em frente ali, na Pensão Pimentel. Não era Sarau, não tinha canjas...
E numa determinada noite (dois meses depois, um tenente do Exército me vendo tocar e sabendo da dificuldade do Sarau, me convidou pra fazê-lo no Círculo Militar, na mesma Avenida Afonso Pena. Lá fomos nós!!!
QUINTO ENDEREÇO: Av. Afonso Pena – Círculo Militar de Campo Grande.
Que lugar maravilhoso! O pessoal todo adorou. O tratamento para comigo era especial e por um ano ficamos ali. Junto a tenentes, coronéis e generais. Eu pagava um aluguel pro clube, mas compensava... Mas os sargentos que moram na vila anexa, se incomodaram com o som e um ano até foi muito pra gente.
SEXTO ENDEREÇO: Rua Bahia (pra cima da Av. Mato Grosso). Era uma Escola de música de uma amiga que tinha um pequeno quintal no fundo, onde 300 pessoas se apertavam para curtir o Sarau. Foi nesta ocasião, em 2002 que fui pra Atibaia buscar meu amor, sem saber que a preta que eu pedia a Deus, seria ela e que eu a traria pra cá. Tornou-se ao longo dos anos, parceira, amor, mãe e companheira pra todas nossas horas. A Val, como gosta de ser chamada é quem comanda hoje em dia, o bar, os petiscos deliciosos, as porções, os cuscus, os pastéis, os sucos e as geladas que somam às nossas noites de Sarau. Na Rua Bahia, duraria novamente 9 meses. A Val acompanhou tudo e foi conhecendo nosso povo. A vizinhança fez com que eu partisse pra outra... Já morava junto com ela na Av. Salgado Filho e resolvemos trazer suas filhas de Santa Catarina pra cá, fazendo com que eu arrumasse uma casa grande na Rua Maracaju.
SÉTIMO ENDEREÇO: A casa da Rua Maracaju estava abandonada há anos. Adeguei o ambiente para não perturbar a vizinhança, morava com a família nova, mas pagava um aluguel muito caro e o movimento, face à tantas mudanças, diminuiu um pouco e os aproveitadores de situações como essa, “abriram outros saraus” O NOME SARAU ERA E É MUITO FORTE. A noite na cidade já estava mais agitada e nosso tempo na Maracaju, não passou novamente de 9 meses. Mudei minha casa prum bairro distante e aluguel mais barato. Parei com o Sarau e depois de exatos três meses, com muita insistência da diretoria da AABB, acabei levando o Sarau pro Parque dos Poderes, sede da instituição.
OITAVO ENDEREÇO: Parque dos Poderes, longe do centro e longíssimo de onde eu morava (18 km) e de difícil acesso para os músicos (a maioria não tinha condução própria). O lugar, construído especialmente para mim, era maravilhoso. Um bosque, iluminado. A poesia dominava... Enquanto isso, outros saraus nasciam na cidade... Tinha quarta feira que eu fazia 3 ou quatro viagens para lá... Durou exatamente um ano nossa estadia na AABB. Gente maravilhosa conheci por lá... Aceitei o convite de um empresário que tinha sua casa (Maria Fumaça) fechada a mais de ano, num ponto excelente no centro da cidade: A Vila dos Ferroviários.
NONO ENDEREÇO: Av. Calógeras 3002 – Vila dos Ferroviários (e futuro corredor cultural da cidade) Cultura na verdade já tinha com a mudança da feira Central para aquela região, mas o Sarau deu uma agitada naquele pedaço da cidade de tal maneira, que projetos foram sendo elaborados pelo poder público. Foram dois anos de muita luta, mas também de muito sucesso. A casa lotava tanto, que o dono, depois de vê-la fechada por anos, cresceu o olho e começou a “roubalheira”. Cansado e me sentindo “escravo” na mão de crápulas, resolvi sair dali. E saí, com uma mão na frente e outra atrás. Duro, sem qualquer economia, fui pro centro da cidade na Pedro Celestino.
DÉCIMO ENDEREÇO: Rua Pedro Celestino (entre as ruas Sete de Setembro e Joaquim Murtinho) Era um tipo de estacionamento e parada de motoqueiros e roqueiros, com uma ediculazinha baixa sem reboco, telhas de amianto, baixinhas e um calor insuportável. O Zé Vitor tinha um aninho e nós (Eu, Val, suas duas filhas e o pequeno) passamos seríssimas dificuldades... Nossa saúde abalada, o pouco movimento, o bar ainda sem ser nosso (até aqui não era ainda) o calor insuportável, as desavenças com os motoqueiros, quebra de instrumentos e aparelhagem e de repente, quando eu já pensava em desistir de vez e arrumar minhas malas pra procurar vida melhor em outro lugar, um amigo de longa data, que ocupava o cargo de Presidente da Fundação Municipal de Cultura, sem que eu o procurasse, mesmo com tanta insistência de amigos para que eu o fizesse, me liga e oferece ajuda. Foi a primeira vez que aconteceu uma coisa dessas.
DÉCIMO PRIMEIRO ENDEREÇO: Av. Ernesto Geisel - Depois de 6 meses desta ligação, com o apoio da FUNDAC, que bancou meu aluguel, estava eu e a família, em uma casa, onde em frente, inaugurariam em seguida um novo Shopping, morando e fazendo o sarau às quartas-feiras. Dois anos foram suficientes para um merecido descanso de aluguel e alimentar as energias e soltar o gás!
DÉCIMO SEGUNDO ENDEREÇO: “Acabou a mamata” Mudou a direção da Fundac e eu precisei arrumar outro local. Mudei-me novamente para um bairro distante, aluguel em conta e voltei a fazer o Sarau em um lugar que hesitei e relutei muito pra voltar. Na verdade seria a primeira vez que eu voltava por onde já tinha passado, e a Ferroviária ocuparia meu tempo por mais alguns meses. Estava a casa em mãos de outra pessoa que deu a ela o nome de República e locava para eventos também. Experimentei a volta, como locação, mas não deu muito certo não. Parti pra mais uma mudança...
DÉCIMO TERCEIRO ENDEREÇO: Morando em bairro distante ainda, passei a fazer o Sarau na CASA DE ENSAIO, à Rua Pe. João Crippa, no centro da cidade. Foi uma gentileza sem tamanho, a direção da casa me ceder espaço, água, luz etc. para que o Sarau não parasse. E não parou. Fizemos noites fantásticas ali também. Músicos novos e sedentos por escola e ambientes continuam a chegar, sempre! Mais dez meses e a Casa de Ensaio precisou entregar o prédio e eu não caberia mais em seu novo endereço. Mudei-me novamente. Procurei casa que desse pra eu morar e trabalhar com minhas oficinas e lógico, continuar o Sarau e minha vida o que é uma coisa só. Quando vejo hoje EM DIA, saraus em novelas, programas de TV e em toda esquina do país, sinto-me um pouco responsável. Mas, sem casa, continuei a procura. Encontrei uma bela de uma casinha de madeira de uma grande amiga minha e conhecedora de toda minha história (a história dela e de seu marido também começou na Treze de Maio) situada no Bairro Piratininga.
DÉCIMO QUARTO ENDEREÇO: Rua Pasteur, 937 – Vila Piratininga.
Num bairro estritamente residencial, precisei me adequar ao local e também ao estilo de vida que agora levo e o Sarau mudou não só o endereço desta vez, mas todo seu formato e jeito de ser. Faço esporadicamente a partir de 17:30 hs., um happy hour, regado a canjas e petiscos deliciosos, num ambiente totalmente familiar e separei o SEGUNDO DOMINGO DO MÊS para promover nossa FESTA DE 12 HORAS DE CULTURA E ARTE. Continuo reunindo escritores, poetas, artesãos, artistas plásticos, gente do cinema, do teatro e da TV e muitos músicos. O quintal é acolhedor, tem uma enorme mangueira com uma espetacular sombra. O palco está sendo feito aos poucos e a música aos muitos... E a saga continua...
Endereço atual:  Rua Pasteur, 937 – Jardim Piratininga – Campo Grande - MS
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