segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Entrevista com o violeiro Almir Sater


Entrevista: Rodrigo Teixeira (Overmundo)

Almir Eduardo Melke Sater é o artista campo-grandense que foi mais longe no mundo da música. Sua primeira apresentação na cidade aconteceu aos 12 anos na extinta Rádio Cultura. Montou a dupla Lupe e Lampião, com o amigo Maurício Barros, tocou com o grupo chileno Água, participou da banda Tapyara e começou a virar profissional quando foi convidado para acompanhar Tetê e o Lírio Selvagem a partir de 1979 em um show em Cuiabá. Uma década depois, o garoto que cresceu com a cara suja de manga e jogando bola nos campinhos campo-grandenses se tornava um verdadeiro fenômeno da música popular brasileira. Com a aparição na novela “Pantanal”, em 1990, o país inteiro caiu nas graças daquele que se transformou no maior violeiro do Brasil de todos os tempos: Almir Sater.


Com dez álbuns solos na discografia e centenas de shows lotados por todas as regiões do país, o músico de 51 anos tem um jeito todo especial de conduzir a carreira. Participou de sucessos (O Rei do Gado) e fracassos (Ana Raio e Zé Trovão) dramatúrgicos. Com algumas músicas na trilha sonora da novela, resolveu enfim, depois de um hiato de nove anos, produzir o disco: Sete Sinais! O seu show, no entanto, não muda e Almir não parece se incomodar com isso. Para ele, mais importante que uma música nova no repertório é agradar a pessoa que pagou para escutar suas canções de sucesso. Dono de um jeito manso de falar e um toque de Midas que transforma o caminho em que passa em paisagem mágica, Almir define o estilo de música produzida por ele e outros compositores de sua geração como folk brasileiro.

Na entrevista (feita após o seu show em Campo Grande, em maio de 2007), Almir explica porque não muda de show, como encara o mundo da Internet hoje em dia, fala dos parceiros Paulo Simões e Renato Teixeira, relembra o tempo em que as gravadoras eram poderosas, garante que está largando os compromissos que não têm a ver com a música, revela que pensa em gravar um novo disco instrumental e elege Geraldo Espíndola como um dos músicos que mais admira.

Rodrigo Teixeira - Como você situaria esta música campo-grandense produzida por você e artistas como Paulo Simões, Geraldo Roca, os Espíndola...? 
Almir Sater - É diferente de tudo. Tem influencia do folk americano, da música paraguaia, andina e esta mistura é bonita. Nossa música não é para o comércio. As pessoas se emocionam nos shows que faço. É uma música para a alma. Ninguém faz igual. O Renato (Teixeira) parece um pouco com a gente. Quando ouvi pela primeira vez pensei "não estamos sozinhos no mundo".

RT - Mas é uma música que ainda está para ser descoberta. 
AS - Espero que não descubram nunca. No momento que você vira moda aí enche o saco. Toca o dia inteiro e você não agüenta mais. Toda moda acaba também. Então o bom é estar paralelo.

RT - O Jayme Monjardim afirma que você é um fenômeno porque é sucesso mesmo estando fora da grande mídia. É difícil se manter no auge? 
AS – É difícil. O Jayme Monjardim me ajudou muito a atingir este sucesso. "Pantanal" foi um divisor de águas. Consegui que a minha música fosse escutada, junto com a minha imagem, com o cenário do Pantanal. Encaixou tudo. É que nem acertar aquela bola que bate na trave antes de entrar.

RT – Você vai voltar a gravar um disco instrumental? 
AS - Estou pensando em fazer um. Mas não toco mais como antigamente. Antes tocava melhor porque tocava o dia inteiro. Mas depois que você casa e tem filho já tem a preocupação com a família e vai te tirando o tempo da viola. Os gênios da música faziam as grandes composições sempre até os 22 anos. Depois tem que cuidar de filho e fica diferente. Sinto hoje que toco pior. Tenho mais macetes. Estou pensando em um instrumental mais para o caipira e para estas coisas da fronteira.

RT – E qual foi a motivação para gravar o “Sete Sinais”? 
AS – Não tinha pensado em gravar. A gente faz muito show e é desgastante. Para fazer um show você ocupa três noites dormindo em ônibus e tudo corrido. Quando me convidaram para fazer a novela “Bicho do Mato” fiquei na dúvida, mas achei legal porque senti que a criançada já não me conhecia mais. E novela é um jeito de se aproximar do público jovem. Me pediram algumas músicas para colocar na trilha. Gravei cinco músicas para escolher uma, mas pegaram as cinco e falaram que iam lançar as músicas no disco da novela. Entrei no estúdio e em 20 dias fiz meu disco. Aí fiquei esperando meses e nada. O pessoal não sabia se iria lançar ou não o disco da novela e então “já que não vão lançar lanço eu”. Fui a São Paulo e mixei o disco às pressas no tempo que tinha sobrando e lancei.

RT – O “Sete Sinais” completa a trilogia que começou com “Terra de Sonhos” e “Caminhos Me Levem”? 
AS – Mais ou menos. É o mesmo clima, mesma banda. O Terra de Sonhos é um disco experimental. Tinha acabado de montar um estúdio semiprofissional em casa. E experimentamos, tipo “vamos fazer um disco aqui e tocar a vontade?”. O Caminhos Me Levem é um disco mais sujão, mais bruto. Mas tem emoção, tem peças e momentos bonitos. O Sete Sinais, em relação ao Caminhos, é mais fino. O repertório mais trabalhado. Nós ficamos umas duas semanas tocando este disco no Pantanal. Entrei no Mosh (estúdio) em São Paulo, gravei umas faixas com violão de 12, mas não era aquilo. Queria uma outra sonoridade. Aí resolvi montar um disco em casa porque senti que precisava de tempo. E em estúdio normal passou as seis horas já tem um cara com o violão esperando para entrar e gravar. Fica muito impessoal. Achei que gravando em casa, mesmo que perdesse um pouco de qualidade, a gente ia ganhar em clima.

RT – E como nasceram as músicas do disco?
AS – As sete faixas em parceria com o Paulinho (Simões) foram feitas desde 2000, na passagem do milênio. As músicas foram feitas na base do violão. Estava no Pantanal com o Simões e eu com um violãozinho pequenininho. A gente ficava conversando e as músicas foram nascendo. Ter composto no violão muda a concepção e ficou um disco mais folk. Acho que é um dos meus melhores discos. Você vai ouvindo e depois de um tempo vicia. Ele é quase unanimidade. Tem uns dois amigos que “gostaram mais ou menos”.

RT - A canção "Três Toques Na Madeira" tem a ver com o "Pagode Bom de Briga". São músicas onde você conseguiu dar uma continuidade àquela música mais caipira? 
AS – Estas duas músicas são críticas humoradas. Porque fazer crítica mal-humorada não dá. Já tá tudo tão difícil, se a gente entrar com mau humor aí pesa muito. Toda crítica para cutucar uma pessoa tem que ser com um sorriso na cara, senão vira briga. E sinto que "Três Toques" tem uma levada bem raiz e uma música simples. A letra é engraçada e bate muito com o que a gente acha do Brasil neste momento. O meu parceiro Paulo Simões é o grande responsável por esta mensagem.

RT - O Paulo Simões está mais ativo neste disco. “Sete Sinais” marca um retorno desta parceria?
AS - Se estou mais tempo em Mato Grosso faço música com o Simões. Eu preciso de presença física para compor. Não sei compor me mandando uma letra por carta e eu fazer a música. Gosto mais de ficar conversando e trabalhando. É muito feliz o nosso processo de criação. Se estou na Serra da Cantareira componho com o Renato (Teixeira) que é meu vizinho. Se o Simões aparecer lá a gente faz música junto. Então é muito de onde estou. Os dois são maravilhosos. Cada um tem um estilo e um jeito de trabalhar. O Simões está mais presente no Sete Sinais porque fiquei mais tempo no Pantanal de 2000 para cá. Em 2000 estava morando lá e ele ficava com a gente. Nada pensado. Não sou um cara de planejar. Sou péssimo planejador. As coisas têm que acontecer espontaneamente. Aí uma luz acende e você enxerga.

RT – Atualmente como é lançar um disco novo no mercado? Antes tinha todos aqueles programas para fazer, tinha uma trilha...
AS – Eu saía com o divulgador da gravadora no carrinho dele correndo rádio por rádio. Hoje é, sei lá eu, o purgatório. Você não sabe o que está rolando. Tá uma coisa perdida. Tenho dó das pessoas que estão começando uma carreira musical. É difícil. Tem que ter muito talento e muita paciência porque não tem caminho para você mostrar o seu trabalho. O que despontam são coisas de compreensão fácil. Musiquinha engraçadinha que fala da bundinha e tal. Um trabalho mais rebuscado precisa de um pouco mais de tempo para entender, ouvir e acho que as pessoas e os meios de comunicação não têm mais este tempo. Ainda bem que tem a Internet que você baixa música e todo mundo é dono de tudo e ninguém é dono de nada.

RT - No Youtube você tem mais de 150 mil acessos. Como você analisa a questão da tecnologia? Você não tem um site oficial por exemplo. 
AS - Me constrange ficar falando de mim em um site. Quem tem que falar do artista são as pessoas que gostam do artista. Senão vira aquela coisa de vaidade, tipo "ah eu sou isso e aquilo". Não sei falar do meu trabalho. O que é, que estilo... Então o que vou falar em um site? Não tem o que falar. As pessoas que gostam e tem tempo falam entre eles, metem o pau, falam bem, falam o que quiser. Mas no momento que é um site oficial tenho que me responsabilizar por aquilo. E não quero me responsabilizar por mais nada. Aliás, to largando tudo na minha vida que não tem a ver com música. A não ser os filhos que não dá para largar. Mas acho maravilhosa a internet. Mudou o mundo do disco e da música.

RT - O CD vai acabar? 
AS - O CD não vai acabar. O que está acabando são as gravadoras. Aquela pessoa que comandava o artista no chicote. Antigamente para você gravar um disco custava uma fortuna a hora de estúdio. Um estúdio custava milhões de dólares. Hoje com qualquer dolarzinho você monta um estúdio razoável em sua casa, grava o disco e lança na Internet. É democrático. O disco daqui a pouco não vai ter mais aquele negócio para você carregar. Vai estar tudo virtual, você baixa a música, monta a capa e faça o que você quiser. Baixa uma, baixa duas e paga porque o artista vive disso. Isto até impede um pouco o pirata. Agora pode ser que o cara baixe e não pague também, mas tudo bem, as gravadoras também não pagam.

RT – Você está fazendo o mesmo show há uns sete anos. Como é inserir músicas novas neste contexto? 
AS – Eu não tenho um show novo e show velho. Meu show é o mesmo a vida inteira. Pode entrar uma música e sair outra ou dar mais ênfase no instrumental. Este show sintetiza o meu trabalho, com músicas de vários discos. E funciona em teatro, praça, exposição, som bom ou ruim e tocamos de costas, dentro d’água, pendurado... É um show que está na mão e agora é que sinto que ele está bom. Então vai ser o mesmo show a vida inteira. Não tem o que inventar. Um show instrumental não dá mais. Já tentei e me pendem sempre as mesmas. “Chalana”, “Violeiro Toca”, “Tocando em Frente”... Vou brigar com meu público, contra o sucesso e não vou tocar a música que a pessoa pagou para ouvir? Se for para cantar só o que eu quero a gente canta lá em casa.

RT - É mais campo-grandense que reclama disso? 
AS – É mais quem vê meu show todo dia. Em Campo Grande é o Paulinho (Simões), meu amigo Zé Alfredo, minha mãe que fica falando ‘você fica cantando o mesmo show’ mas ela vai a todos os shows. Os músicos também reclamam, mas digo ‘pô agora que está gostoso este show’.

RT - Quando você chegou neste “som do Almir Sater”? Em discos mais antigos você flertava com muitas tendências diferentes e até com um som mais pesado. 
AS – Eu não sou sertanejo. Eu sou pop. Eu sou roqueiro. Não escuto música sertaneja em casa. Escuto violeiro pontear a viola e não tem nada a ver com sertanejo. Violeiro é instrumentista, é bandeira brasileira... Escutar o Tião Carreiro pontear uma viola é rock’n roll. Sempre gostei deste som mais de pegada. Sempre gostei de violão de 12, por exemplo. No meu segundo disco tem o “Boieiro do Nabileque” que tem tudo a ver com o “Sete Sinais”. Acho que os meus discos tem a ver um com o outro. O mais diferente é o Cria que tentei fazer um caminho mais pop e foi um resultado razoável.

RT - Você concorda que modernizou a maneira de tocar e deu um passo a frente no som da viola de 10 cordas no Brasil? 
AS - A música caipira e os violeiros eram de uma geração. E cheguei de uma outra geração, com outro tipo de tendência, com um pouco de influência do rock'n roll, música folk, música andina e passei a tocar viola trazendo estas influencias. E mostrou-se as mil possibilidades da viola. O próprio Tião (Carreiro) ficou encantado e achou bonito o som e com coisas que ele nunca pensou em fazer. Sou um cara que chegou cabeludo em uma época que tinha uma diferença dentro da mesma gravadora. Tinha um selo que era só sertanejo e outro que era popular. Ninguém sabia onde me colocar. Um falava “é sertanejo” e o outro “é popular”. Perguntei qual era a diferença e qual que eles pagavam melhor. Pra sertanejo era 50% menos e eu disse "então sou popular". Na época, se tinha um royalty de 10% para o sertanejo era 5%. Era discriminado mesmo e só tocava na madrugada. Eles se vingaram, entupiram as rádios e agora tem que agüentar os caras.

RT – Como você analisa a influencia paraguaia na música brasileira? 
AS - A primeira fusão da música do Paraguai com a brasileira foi Chalana lá na década de 40. Música paraguaia é simples, mais emoção. Ela pode passar pra gente aquele sentimento mais simples, tocar aquelas coisas que permitem cantar umas letras mais íntimas. Trem do Pantanal é uma guarânia com a influencia paraguaia, mas a harmonia dela é toda blues. E o blues em compasso ternário fica gozado. Nunca gostei de tocar guarânia imitando o jeito paraguaio. É sem graça. Agora é bacana trazer aquela emoção da fronteira do toque da música paraguaia para o nosso som. Nós crescemos ouvindo isso e faz parte da nossa cultura. Música ao vivo em Campo Grande é na churrascaria com grupo paraguaio tocando. Isto foi importante. Mas não sei se esta música vira sucesso. Ela já é sucesso. Este rasqueado, esta música sertaneja, ela tem muita influencia da música paraguaia, os mariachis...

RT - De costas para o Atlântico e de frente para o Pacífico... 
AS – No Mato Grosso do Sul estamos de frente para as estrelas.
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