quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Corumbá e a mística do seu Carnaval



 
Claudio Zarate Sanavria


Para falar do Carnaval de Corumbá primeiramente é necessário falar do próprio corumbaense. Todos sabem que as pessoas nascidas e criadas no coração do Pantanal são peculiares tanto em aspectos culturais quanto nas relações interpessoais. Em certa ocasião, um amigo meu, 100% nordestino, me confidenciou ao conhecer a cidade: “Corumbá não é MS. Isso aqui parece outro estado”. Além do famosíssimo calor pantaneiro existe em Corumbá um calor humano muito intenso. O corumbaense é hospitaleiro, faz amizades com muita facilidade e adora cantar e exaltar as belezas da sua região, esteja onde estiver. É raro encontrar um corumbaense que fale mal de sua terra natal. Se pensarmos nas origens dessa cidade bicentenária veremos que seu povo traz nos genes características indígenas, espanholas, portuguesas, argentinas, uruguaias, paraguaias, árabes, cuiabanas, nordestinas, cariocas e tantas outras que contribuíram substancialmente para a formação dessa apaixonante população pantaneira.


A partir da compreensão da formação do povo corumbaense podemos ter mais clareza da ligação do mesmo com o Carnaval. Não se trata apenas de um simples feriado ou de uma festa comercial. O corumbaense VIVE o Carnaval. A cidade se transforma durante este período. Por onde se passa ouvem-se tambores dos ensaios das escolas, veem-se pessoas preparando fantasias, enfim, sente-se uma atmosfera de festa e alegria. Esse amor do corumbaense pelo Carnaval se deve, e muito, à vinda dos marinheiros cariocas para o 6º Distrito Naval da Marinha do Brasil, localizado em Ladário, cidade irmã de Corumbá. Mas essa ligação Corumbá-Rio remonta aos tempos áureos das navegações fluviais, quando a Cidade Branca era o principal entreposto comercial do oeste brasileiro. A vinda da Marinha apenas estreitou estes laços, influenciando até mesmo no sotaque local. Além do ‘s’ puxado, os cariocas trouxeram para o Pantanal as escolas de samba como uma forma de amenizar a saudade da Cidade Maravilhosa. Assim, há mais de sessenta anos estas cidades ficam mais próximas durante o reinado de Momo.



6º Distrito Naval da Marinha



        O Carnaval de Corumbá não se restringe aos belíssimos e animados desfiles das escolas de samba na avenida General Rondon, cujas palmeiras imperiais ajudam a dar mais encanto à festa, além da mágica vista que se tem do Pantanal. A folia já começa com a escolha e coroação de Corte de Momo, geralmente realizada um mês antes da festa. Na quarta-feira de carnaval ocorre a descida do bloco “Sandálias de Frei Mariano”, que reúne principalmente as pessoas que irão trabalhar nos próximos dias de folia e que não terão outra oportunidade de curtirem a festa. Com o irreverente refrão “Fora com o chulé do padre! Fora com o azar! Hoje eu quero é folia. Hoje eu quero rosetar!” os foliões satirizam a lenda do frei que, ao enfrentar problemas para pagar a montagem do relógio da igreja matriz no século XIX, deixou a cidade e rogou uma praga na mesma. A lenda diz que a “praga” rogada era a de que Corumbá não se desenvolveria enquanto não fossem encontradas as sandálias do frei, atiradas por ele mesmo no rio Paraguai. Felizmente a cidade encontra-se em desenvolvimento apesar dos famigerados calçados ainda repousarem em algum lugar das profundezas do rio.
      



        Na quinta e sexta-feira é a vez dos blocos de sujos descerem a rua Frei Mariano (aquele mesmo das sandálias) em direção à avenida General Rondon. Só no bloco Cibalena, o mais tradicional da cidade, 12.000 pessoas brincaram em 2011. Nos blocos de sujos os homens vestem-se de mulher e as mulheres transformam-se em homens. Há até concurso das melhores fantasias, tudo no maior clima de alegria e descontração.




Avenida General Rondon (Foto: Anderson Gallo)

No sábado é a vez dos blocos oficiais descerem para a avenida. Todos os anos são dezenas de blocos que arrastam multidões para a folia. Um dos mais tradicionais é o Flor de Abacate, fundado em 15 de janeiro de 1966 por um grupo de amigos, dentre eles o meu pai, que por mais de 25 anos carregou o estandarte do bloco cujo samba “Boa tarde! Boa tarde” é mais conhecido que o próprio hino da cidade. Não há corumbaense que não saiba este samba.

“Boa tarde, boa tarde/ Nós de novo aqui/ Com o Flor de Abacate/ Pra sambar até cair/ No trabalho e na luta/ Mais um ano passou/ Flor, Flor, Flor/ Carnaval já chegou/ Minha gente venha ver/ Venham todos aplaudir/ Que o Flor já vai descer/ Pra desfilar na avenida/ Representando você.”

Inicialmente formado apenas por homens e meninos, atualmente “o Flor”, como é carinhosamente conhecido, arrasta famílias inteiras pela avenida.


Bloco Flor de Abacate (http://www.diarionline.com.br)


Além do Flor existem ainda o “Oliveira Somos Nós”, “Arthur Marinho”, “Olodum”, “Águia da Vila”, “Bola Preta”, “Nação Zumbi”, “Praia, Bola e Cerveja”, “Intocáveis”, “Vitória-Régia” e “Clube dos Sem”. Os blocos corumbaenses são sempre resultado da alegria de amigos que resolvem se reunir e brincar o carnaval de maneira saudável e feliz. A brincadeira cresce e, em poucos anos, o bloco já conta com centenas e até milhares de adeptos. Assim como as escolas de samba, os blocos também concorrem entre si e a “briga” costuma ser acirrada, disputada ponto a ponto no dia da apuração oficial.
Existem ainda os chamados “blocos independentes”. Inspirados no carnaval de Salvador, blocos como o “Afoga o Ganso”, “Cafajestes”, “Biriguis”, “Fúria Pantaneira” e “Guerreiros” levam milhares de foliões com seus abadás atrás dos trios elétricos, lotando a avenida durante a madrugada. O bloco “Afoga o Ganso”, criado em 1987 passa facilmente dos 4.000 foliões e costuma trazer nomes de peso para animar sua concentração, como o grupo Harmonia do Samba, que agitou os foliões em 2009.


Corumbá também mantém vivas suas tradições com o Carnaval Cultural, geralmente realizado na última noite de folia. Nesta noite é realizado o tradicional Desfile dos Corsos, Bloco do Frevo, Ala das Pastorinhas, Bloco dos Palhaços e Bloco dos Marinheiros. Além disso, ocorrem ainda os desfiles dos Cordões Flor de Corumbá, Cravo Vermelho, Paraíso dos Foliões e Cinelândia. A ideia é manter vivo o amor do corumbaense pelo carnaval e transmiti-lo às novas gerações de pequenos foliões. É o momento de levar a família inteira para curtir cada instante da alegria desta época.


Bloco dos Palhaços (http://www.falams.com.br)

Bloco dos Marinheiros (www.g1.com.br)


Durante o dia sempre ocorrem atividades culturais no Porto Geral, nas praças ou mesmo na avenida. As matinês costumam reunir um grande número de crianças que, acompanhadas de seus pais, começam a compreender e amar essa época do ano.
As escolas de samba são a alma do carnaval corumbaense. Assim como no Rio de Janeiro, as pessoas escolhem suas escolas preferidas e torcem pelo título com afinco e paixão. É inexplicável a sensação que se tem quando se está em plena avenida ao som da bateria e dos gritos do grande público que lota as arquibancadas nas duas noites de desfile. Atualmente Corumbá possui nove escolas, sendo cinco no grupo de acesso e quatro no grupo especial. A atual campeã, Império do Morro, foi fundada nos anos 50 e todos os anos encanta pela beleza e organização de seu desfile. Outra grande escola é a Vila Mamona, uma das que mais traduz o sentimento de comunidade no carnaval de Corumbá. Os desfiles não possuem todo o luxo ao qual estamos acostumados no Rio de Janeiro, mas traduzem um ano de pura dedicação e carinho do povo para com as suas escolas. Carinho amplamente retribuído pelo público.


Escola Império do Morro (http://noticias.r7.com)




Uma vez eu li numa crônica que “ser corumbaense é um estado de espírito”. Eu acredito que o Carnaval faça parte desde espírito de tal maneira que, mesmo longe da sua terra natal, é impossível adormecer este sentimento de amor e orgulho no coração de quem nasceu e viveu nesta terra. Corumbá tem o maior Carnaval do Centro-Oeste Brasileiro e sua grandiosidade está, antes de tudo, no sentimento de pertencimento que seu povo expõe durante o reinado de Momo. Seja nos desfiles, seja nos clubes, nos bailes que encerram a noite ou no amanhecer pantaneiro que a todos deslumbra, o mais importante é saber que o seu povo sabe manter suas tradições e está sempre disposto a compartilhá-las com todos que lá chegam.
Vamos curtir o Carnaval do Pantanal?


Claudio Zarate Sanavria tem 32 anos, é corumbaense, doutorando em Educação, professor do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul, campus Nova Andradina, cidade onde atualmente reside sem nunca abandonar suas origens pantaneiras.
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